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Ela desconstruiu muitas ideias para se construir como mulher

Publicado: Sexta, 12 de Março de 2021, 15h13 | Última atualização em Sexta, 12 de Março de 2021, 20h19



Uma vida autodeterminada só é possível a partir de transformações diárias e contínuas. Esse parece ser o grande ensinamento do relato de Marilda, que conectou sua infância, sua maturidade e sua ancestralidade ao escolher morar e viver no quilombo do Curiaú. Ela escolheu também desconstruir, em sua própria mente, as barreiras que já haviam sido naturalizadas ao seu redor. Hoje, para ela, natural é refletir sobre tudo e se posicionar sempre que assim avaliar necessário. Essa mulher inspiradora está, enquanto escrevemos esse texto, hospitalizada travando mais uma luta com um inimigo coletivo, dessa vez é um vírus. Aguardamos ela por aqui plena de saúde para ser tema de tantas outras matérias na história do Ifap. Assim, encerramos a série "História de vida de mulheres do Amapá: lembrar, contar e resistir”. Foi um prazer compartilhar com vocês todas essas histórias de mulheres incríveis que estão ao nosso lado na família Ifap. Com vocês, Marilda Leite Pereira por ela própria:

 Meu nome é Marilda Leite Pereira. Tenho 56 anos, três filhos e sou solteira. A primeira liberdade que tenho hoje é poder falar da minha idade sem medo de ser feliz. Vim de uma cultura que mulher não fala a idade porque não é elegante.

O reconhecimento de mim mesma, como mulher, começou há muito tempo. É o que a gente chama hoje de empoderamento. Não foi fácil ser filha de um homem nordestino. Eu não admitia ouvir a minha mãe falar: “Quem manda na casa é teu pai”. Meu Deus! Qual era o papel da minha mãe? Fui crescendo insatisfeita com a postura que minha mãe exercia no lar.

Aos 13 anos, queria ser professora. Eu já exercia o magistério na Igreja Nossa Senhora Aparecida, dava aula de catecismo. Mas assim que papai soube, falou que eu iria fazer o curso Técnico em Enfermagem e depois iria ser médica. Me inscrevi no curso técnico, fiz a prova e fui aprovada. Logo no primeiro ano, percebi que não era vida pra mim. A dor do outro me comovia e eu não poderia expressar esse sentimento. Até então estava tudo certo para eu ir fazer Medicina em Belém. Nesse período eu já havia entrado em contato com filosofia secretamente, pois estávamos no período da ditadura e filosofia não era mais componente curricular.

Durante minhas férias, eu vinha passar o mês com minha avó materna e eu amava essa liberdade de correr no campo atrás de porco, de boi, mas uma coisa tinha em comum com minha casa: o vovô era o chefe aqui. Minha avó chegava da roça e ia fazer as atividades domésticas, então meu avô tomava banho e esperava o jantar. Essas observações me levavam a acreditar que minha vida seria igual, mas sinceramente eu não queria isso pra mim. Quando estava no segundo ano do curso técnico, um dia papai chegou em casa e falou para a mamãe que eu não iria mais pra Belém, porque umas filhas de uns amigos deles chegaram com o diploma no meio da barriga (as moças voltaram grávidas e não continuaram a estudar).

Terminei meus estudos naquela época aqui em Macapá – quem terminava o segundo grau tinha terminado o estudo.

Casei e, com um ano e seis meses, me separei. Com 15 dias de separada, fui em Belém para fazer cursinho. Passei para o curso de Filosofia. Esse curso me fazia refletir sobre qual vida eu queria para mim. Durante a faculdade, morei em república, recebia bolsa estudantil e vendia roupas.

Foi minha convivência com outras pessoas que me fez refletir e me colocar no lugar do outro. Havia dias que eu pensava em voltar, que na casa do meu pai eu tinha tudo – papai melhorou muito de vida. O que eu fazia ali? Mas me lembrava de que eu tinha que ser diferente da mamãe. E, depois de formada, casei. Eu sempre desejei voltar pra Macapá. Queria voltar a passear no Curiaú.

Em 1999 voltei a Macapá. Dois anos depois, fui trabalhar na Escola Bosque do Bailique. No Bailique, tive a oportunidade de conhecer mulheres que também eram insatisfeitas com sua condição de donas de casa, mesmo tendo um emprego. Em 2001, fui trabalhar no IMMES e dois anos depois fui trabalhar na UVA e também no SEAMA, ou seja, eu trabalhava em três instituições educacionais ao mesmo tempo.

Havia em Macapá o Banco do Povo. O governo do estado oferecia ao pequeno comerciante um valor para que este pudesse investir no seu comércio. Eu atendi a todas as exigências pedidas pela Afap (Agência de Fomento) e acabei recebendo um empréstimo de 5 mil. Nesse mesmo período, comecei a fazer parte da associação de moradores do bairro onde morava e gradativamente fui me ligando em um partido político e comecei a discutir e ler a respeito da condição da mulher negra na sociedade amapaense.

Em 2005 fiz concurso para professor, passei e fui trabalhar em Santana. Dois anos depois fiz concurso para professor de Ensino Religioso, agora era para o município de Santana. Passei, mas não trabalhei, pois teria que assumir 20 horas no estado e 20 no município de Santana.

Sempre participo ativamente, no meu partido político, das questões do homem e da mulher negra. Em 2011 fui convidada pelo partido que sou filiada a assumir a Secretaria Extraordinária dos Afrodescendentes do Estado do Amapá (Seafro). Aceitei e comecei a trabalhar. Pude sentir, mais do que nunca, a condição da mulher negra. Aqueles obstáculos que mencionei anteriormente não me pareciam tão dolorosos como alguns casos que passei enquanto secretária da Seafro.

Comecei a me identificar com meu ambiente de trabalho. Chegando para trabalhar nessa secretaria, percebi que era preciso continuar um programa de rádio que era marca da Seafro. Eu e dois colaboradores fomos fazer o programa Seafro no Meio do Mundo, todas às sextas-feiras, das 19 às 21 horas, na rádio Difusora de Macapá. Um dos nossos objetivos era aproximar as comunidades quilombolas aos seus direitos. Com isso em mente, visitávamos as comunidades quilombolas.

Na Seafro, eu consolidei meu pensamento a respeito do papel da mulher negra dentro do contexto político e social. Hoje meu olhar é diferenciado. Se houver um comercial na TV e eu não me encontrar representada, questiono; se numa apresentação ou numa reunião em que colocam slides ou fotos não existirem mulheres ou homens negros, eu questiono. Se eu não questionar, vai parecer natural que somente homens e mulheres brancas trabalhem nesse espaço.

Fiz concurso público pra professor do Ifap e em 2012 tomei posse como servidora federal. Passei a trabalhar no Ifap e na Escola Estadual Darcy Riberio. Fui convidada para ser coordenadora de estágio do Ifap. Depois surgiram outras coordenações.

Hoje moro no quilombo do Curiaú. Dou assistência para minha mãe, de 85 anos, e meu pai, de 79. Amo esse lugar porque existe uma forte ligação minha com meus ancestrais.

A partir da filosofia, eu pude ter forças para questionar e nunca me acomodar. É através da prática filosófica que eu não estou acorrentada nas aparências, no consumismo, nas vaidades do poder, nas convenções tão medíocres. Foi com o conhecimento filosófico que eu adquiri consciência de classe e sei que nossas escolhas sempre têm uma consequência. Percebi que tudo o que eu quis, eu consegui, mas foi com foco, responsabilidade e muita crença em mim. Todos os obstáculos pareciam montanhas na minha frente e depois de uma boa respirada eu começava a lutar até aquela montanha se tornar um pó no meu caminho que eu iria pisar e seguir em frente. Eu creio que isso é empoderamento, pois empoderar é indicado no sentido de conceder poder, seja para alguém ou para si próprio. Hoje eu sou empoderada, tenho o poder de questionar, lutar, dizer sim, não, de amar, de ser feliz.

 

Nota do editor: Pouco depois de publicarmos aqui no site do Ifap sua história, tivemos a triste notícia que Marilda faleceu. Decidimos manter a íntegra do texto que a havíamos feito com cuidado e carinho para que mais pessoas saibam da mulher brilhante que ela foi e para que sua história possa continuar inspirando principalmente homens e mulheres negras a quem tanto ela dedicou sua vida.


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